Arquivo

Posts Tagged ‘yap.tv’

Social TV – Como a Internet não está a assassinar a Televisão

Quando eu era mais novo, um dos momentos altos do ano eram os Oscars. Lembro-me que era aquela noite que ficava até às 4 da manhã, com a cabeça a bater na parede, a tentar ver o espectáculo até ao fim. Mas não era só porque queria saber quem iria ganhar ou ver as celebridades. Era especialmente por causa da preparação da noite – a minha avó comprava Ginger Ale e batatas fritas e ficávamos só os dois – ela com o seu Whisky e eu com o meu Ginger Ale, ela a comentar os vestidos delas e eu a comentar as piadas de abertura, ela a falar dos tempos do cinema em que o glamour era outra coisa e eu a comentar os efeitos especiais. Era um evento especial que acontecia todos os anos e que os dois ficávamos noite fora a ver. É uma daquelas memórias que guardo na memória com o maior afecto e saudade.

Passados alguns anos, eu dei por mim a ver os Oscars sozinho em casa. E não era a mesma coisa. É verdade que continua a ser um espectáculo interessante de ser ver, mas perdeu toda a envolvência que me lembro de ter quando era mais novo. Isto, claro, até ao momento em que decidi ligar o Twitter durante o evento – e descobri toda uma nova forma de ver televisão.

Isto tudo serve para vos introduzir um conceito que, parecendo totalmente comum, não o é para muitos – Social Television. A definição dada para este conceito é uma tecnologia que suporta interacções sociais em contexto de ver televisão ou relacionado com conteúdos da própria televisão. Isto poderá abranger comunicação de voz, chats, texto, situações presenciais recomendações de programas, cotações e até vídeo-conferência – seja através da própria televisão ou de aparelhos externos.

Quando digo que este conceito não é novidade é porque muitas boxes para Televisões actuais já contêm Widgets e Aplicações que permitem aceder à Internet e partilhar conteúdos pelas Redes Sociais. Da mesma forma, algumas televisões, como da Samsung, já têm o sistema de Internet@TV, que permite ao próprio aparelho ter um sistema de Widgets e Apps e aceder à Internet para partilhar conteúdos.

Eu poderia alongar-me neste post a falar da tecnologia ou plataformas que permitem ter uma experiência de Social TV. Mas não é esse o meu interesse. A proliferação de aplicações no mercado dos telemóveis e, subsequentemente, nas Televisões faz-me querer fazer um full stop e pensar um pouco em como é que as Aplicações e Social Context preenchem necessidades ou tornam a experiência televisiva efectivamente mais rica. Ao fazer essa reflexão surgiram-me alguns ponto em que realizei-me da verdadeira utilidade da Social TV:

  1. Make it enhanced – Social TV pode ser uma forma de aumentar a experiência do público com o programa em questão – e poderá não ser apenas em lógica social. Um programa tem sempre um contexto muito interessante por trás – desde história, curiosidades até aos próprios actores. Não foram poucas as vezes em que, ao ver um programa, me escaparam algumas piadas por não ter noção do contexto – situação em que pego logo no telemóvel e pesquiso para conseguir perceber a piada. Logo, a utilização de aplicações que, em conjunto com o programa em si, dão mais informação sobre o programa é um caminho muito interessante para Social TV, especialmente do lado de soaps.
    Mas atenção – isto não colocar um directors’ comment durante o episódio no Twitter, como já foi tentado anteriormente – esta acção, sendo altamente nicho, não teve o efeito que era esperado nos consumidores. É apenas dar mais informação que é vista pelo utilizador ao seu ritmo e que traga valor realmente acrescentado à experiência.
    Um exemplo claro desta experiência é a recente aplicação para iPad para a série Grey’s Anatomy. A App detecta o som do programa a ser emitido e vai actualizando a informação da mesma em função dos episódios – desde polls, opiniões, informação extra e opiniões de outros utilizadores. Só espero que venham a fazer o mesmo para Glee (fica aqui o pedido). Outro contexto interessante seria ter uma App que, ligada com um telejornal, dá mais informação sobre a noticia a ser vista em tempo real. As possibilidades são imensas e ainda por explorar.
  2. Make it social – Social TV é… tornar a experiência de ver televisão social. Soa-me sempre redundante dizer isto por vários motivos – a televisão enquanto media sempre funcionou como agregador da sociedade, estandardizando a informação recebida e servindo de pedra de toque comum ao seu público. Ao surgir a Internet e o fenómeno do Long Tail, é natural que tenha também surgido um problema de fragmentação do público. Ao tornar a experiência televisiva mais social num contexto Web, a televisão volta a ganhar uma nova vida enquanto agregador de massas.

    Uma forma interessante de verificar isto é através das aplicações que têm surgido que permitem aos utilizadores dizer, em tempo real, que programas estão a ver. Exemplos como o Tunerfish, o Miso ou o GetGlue permitem a qualquer utilizador, muito à semelhança do Foursquare, fazer check in a programas, partilhando directamente nas redes sociais. Um exemplo também muito interessante é o yap.TV, que estando directamente ligado à programação dos canais norte-americanos, serve de TV Guia e Social tool ao mesmo tempo. Outra aplicação que tem tido bastante buzz ultimamente é o IntoNow. Esta permite a um utilizador, ao gravar o som da televisão, saber qual o programa que está a ver, incluído qual episódio e algumas informações extra do mesmo, e partilhar directamente. É uma espécie de Shazzam para TV.

    E para os que indicam que a fragmentação dos utilizadores nos vários canais de televisão disponíveis na TV Cabo, eu respondo – quanto canais desses têm efectivamente massa crítica – sem contar com a própria natureza do público – para angariar partilhas?

  3. Make it live – Voltando aos Oscars, uma das situações mais ricas para aproveitar do social context são eventos – todo o tipo de prémios e eventos com grandes audiências. O exemplo que gosto de dar é da mudança que se viu dos Oscars desde 2008. Tendo tido grandes quebras de audiências nos últimos anos, a organização decidiu tornar-se mais Web. Assim, não só criaram uma aplicação que permite aos utilizadores votarem nos seus favoritos e verem como vão as votações e as probabilidades, como também o partilhar directamente com os seus contactos. Em 2010 tiveram inclusivamente um enviado especial que acompanhava o Twitter e ia dizendo as reacções e perguntas dos utilizadores no Red Carpet.

    Ainda mais interessante foi ver como o live tweeting dá força a estes eventos. Cada vez mais utilizadores seguem os eventos através dos Tweets de jornalistas e utilizadores que estão no próprio Evento.

    Se tiverem mais interesse na temática de como o Twitter pode salvar o Live TV, sugiro este artigo que, sendo muito resumido, creio que resume a situação muito bem.

  4.  

Estes são apenas alguns exemplos de como Social TV pode ter uma verdadeira utilidade que não seja só de “ter apps por ter”. Existe um motivo para elas existirem e tenho a certeza que estamos apenas a raspar a superfície. Social TV transcende os meios pelas quais acontecem – não é por ter Aplicações ou Widgets ou uma Plataforma. Social TV é uma forma de estar – uma consequência do fenómeno das redes sociais que, por sua vez, obrigou a televisão a fazer um círculo hermenêutico de reinterpretação do próprio meio para se reajustar à nova realidade social. Ou seja – Social TV é, em primeiro lugar, uma forma de estar e não uma tecnologia.

Mas o ponto mais interessante e que quero deixar neste artigo é – Internet didn’t kill the TV Star. Pelo contrário – a Internet surgiu como uma plataforma que reforça a importância que a conjugação dos vários meios permite atingir sucesso e alcançar o público. É lógico que não estou a falar de espaço publicitário – este está neste momento numa roda-viva por as marcas não se realizarem onde devem investir. Mas havendo uma proliferação da forma de estar Web nos meios tradicionais, eventualmente todos voltarão a ter a sua devida importância e investimento. A questão agora é ter paciência – estamos no eye of the storm do shift da Sociedade no que refere à forma de absorver informação e as próprias necessidades sociais. E após a tempestade virá a bonança para todos que souberam esperar, investir e apostar na verdadeira convergência digital.

Fontes:

http://gigaom.com/video/intonow-social-tv-app/

http://en.wikipedia.org/wiki/Social_television

http://www.masternewmedia.org/social-media-meets-online-television-social-tv-is-next/

http://www.massrelevance.com/how-twitter-will-rescue-live-television/

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

%d bloggers like this: