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Quora e o declinio do Anonimato

Quem é que ainda não se cruzou com o Quora? A plataforma de perguntas/resposta que surgiu em meados de 2010 demorou algum tempo a arrancar mas rapidamente ganhou uma considerável notoriedade – especialmente com profissionais do meio online. Já defendido por profissionais como o Robert Scobble (o Friendfeed também foi, mas vamos fazer de conta que não sabemos isso…), quando olhamos para o Quora questionamo-nos de qual é a sua verdadeira utilidade e quem é a sua verdadeira concorrência.

O Quora é, de uma forma simples, um conjunto de perguntas e respostas criadas, editadas e organizadas por qualquer utilizador registado. As perguntas são categorizadas por tags muito reminiscentes ao Del.icio.us e qualquer utilizador poderá responder às perguntas, desde que esteja registado na plataforma. O modelo em si não é totalmente novo pois segue o modelo de respostas colaborativas ao estilo do Stack Overflow. As interacções estão sempre associadas ao perfil do utilizador, não havendo espaço para respostas anónimas, lembrando o Yahoo Answers.

O grande ponto que acaba por separar os dois é, por um lado, toda a abordagem gráfica mais sóbria e organizada do Quora, por outro lado, a utilidade percebida de cada uma das plataformas. O Yahoo Answers aparenta ser muito mais focado em obter respostas a perguntas isoladas, enquanto o Quora assume uma postura de biblioteca e repositório de perguntas e respostas para futura consulta e revisão. Os utilizadores do Quora são incentivados a identificarem-se com a sua persona real e, através dessa identificação e especificação da área profissional, são orientados para responderem a perguntas das suas áreas e a mostrar o seu know-how. No Yahoo Answers os utilizadores criam Avatars e Usernames, dando uma perspectiva totalmente diferente sobre o tipo de respostas e até a apreensão do expertise por parte de cada utilizador.

Este último ponto leva a uma análise interessante do status da evolução da Web – se até agora verificámos que os consumidores online valorizam mais a opinião de estranhos versus a opinião das marcas, o Quora é um interesting turn of events pois mostra uma tendência que, sendo cedo demais para determinar se irá continuar, traz a nova luz o conceito de líderes de opinião no digital. Num artigo que escrevi em 2008 sobre o efeito Adam Smithiano no digital, mencionei como acreditava que os lideres de opinião na Web surgiam de forma natural e que a proliferação de conteúdo criado pelos utilizadores iria, eventualmente, passar por um processo de afunilamento para se conseguir filtrar o que realmente interessante. O Quora é um claro exemplo de como ter uma cara associada a uma opinião começa a ter relevância na separação do trigo do joio.

É claro que o ponto que eu defendo acima é totalmente refutável nesta fase da avaliação. O Quora é muito recente e é, na óptica de muitos utilizadores, apenas mais uma rede social. É raro acreditar em novas redes que não acrescentem algo de novo às interacções online. No entanto, esta plataforma – atenção, a meu ver não é uma rede pois acaba por respira e depende da ligação com as redes que o utilizador já está inscrito – tem um pressuposto base diferente das redes que surgem:
– Não é um agregador de redes sociais apesar de podermos anexar às nossas redes para difusão de respostas e partilha de conhecimento
– Não é tão importante para seguir amigos mas sim para seguir profissionais – muito semelhante, a meu ver, com o Twitter neste ponto (não do desenvolvimento que as respostas podem assumir)
– Respira de um principio que é realmente interessante – se é um profissional com uma opinião válida, nós dizemos-lhe quais os tópicos que lhe podem ser relevantes e incentivamos a que responda.

O casamento que, a meu ver, falta no Quora é o LinkedIn – que será a junção natural com o tempo. Enquanto um stand alone acredito que ainda tem território para conquistar. Mas, ao contrário de muitos outros que lhe antecederam, o Quora ainda tem um pressuposto inicial que me parece muito interessante e que recomendo que acompanhem de perto.

  1. Miguel Albano
    14/01/2011 às 11:18

    Luís, permite iniciar com uma passagem do teu texto:

    “Este último ponto leva a uma análise interessante do status da evolução da Web – se até agora verificámos que os consumidores online valorizam mais a opinião de estranhos versus a opinião das marcas…”

    Daqui retiro três pontos para comentário.

    1) A opinião das marcas … é um tema sensível e complexo. As marcas, enquanto entidades abstractas que promovem uma tentativa de relacionamento meramente emocional, nunca conseguiram (nem, a meu ver), algumas vez conseguirão ser credíveis e respeitadas enquanto fontes de opinião. As próprias organizações, quando apoiadas numa comunicação institucional não focada nas pessoas têm como consequência a perda de confiança por parte das suas audiências. Estudos como o Trust (da Edelman), o Global RepTrak (do RI) demonstram que as pessoas efectivamente confiam mais nas “pessoas como elas” do que nas fontes institucionais, das quais desconfiam das agendas escondidas”

    2) Repara que utilizo a expressão “pessoas como elas” em oposição a “estranhos”. O conceito de estranho é extremamente interessante de analisar, seja no universo online seja no universo real. Eu posso efectivamente não conhecer a pessoa que está ao meu lado no autocarro, mas, se numa rápida avaliação visual e contextual conseguir sentir o mínimo de empatia com a minha própria pessoa, consigo atribuir-lhe um pouco, ainda que de forma residual, de confiança e credibilidade.

    O mesmo acontece quando ouvimos e lemos as opiniões de terceiros na web. Se a nossa avaliação contextual e visual da fonte de opinião nos gerar empatia, atribuir-lhe-emos valor.

    3) Consumidores online … esta é só porque hoje acordei para o lado errado🙂
    Porquê consumidor? Porquê online? Eu posso não ser um consumidor, posso ser um mero leitor. Posso até ter outras funções de relação (colaborador, investidor, parceiro, fornecedor, familiar … um gajo que embirra) e posso não ter uma influência online e simplesmente transferir essa influência na relação para o mundo offline.

    Last but not least, os meus dois cêntimos em relação ao Quora.

    – É uma plataforma simples, que atrai de facto conteúdo e valor. Algures na sua escala de evolução, irá ser um mix entre FriendFeed, Wikipédia e Yahoo! Answers (e tantos outros que por aí andam). Não é a última Coca-Cola do deserto.

    – Que o anonimato está cada vez menos na moda, isso é um facto. Valorizamos cada vez mais o facto das pessoas darem a cara pela sua opinião. Mas o anonimato não terá fim. Não nesta nossa Internet.

  2. Miguel Albano
    14/01/2011 às 11:36

    Luís, permite-me abusar do teu espaço para uma outra reflexão.

    Questions … mas quem é que tem questões (tirando aquelas que nos atravessam muito pontualmente) … jornalistas, estudantes, profissionais?

    Answers … se queremos valor, presumo que sejam os verdadeiros especialistas a recorrer ao Quora para partilhar a sua experiência, conhecimento.

    Daí que acredito que o Quora tenha um potencial limitado (e ainda bem, para assegurar qualidade) a um universo de “pros”

    Hmmm … além disso, as barriers to entry a um modelo daqueles são extremamente reduzidas. Se o LinkedIn reformular aquilo que já tem (ou até mesmo comprar o Quora), that’s it …

  3. 14/01/2011 às 14:55

    Olá Miguel! Antes de tudo, obrigado pelo Comment🙂 Tens bastantes bons insights.

    Só alguns pontos aos teus pontos:

    1. Relativamente a esta tua frase – “a nossa avaliação contextual e visual da fonte de opinião nos gerar empatia, atribuir-lhe-emos valor…” – concordo a 100%. E acredito que a posição do Quora em ter caras e nomes atribuídos aos utilizadores é um passo importante na construção da confiança entre as várias partes do site.

    2. “Consumidores” é uma palavra muito feia à qual me habituei e tenho tendência a utilizar. Mea culpa🙂 Queria ter dito utilizadores.

    3. Efectivamente acredito que o Quora irá ser, se sobreviver ao hype inicial, uma plataforma puramente profissional. Daí que acredito que uma sinergia com o LinkedIn é quase um given. Enquanto plataforma isolada não sei até que ponto conseguirá manter o interesse. Mas é como te digo – prefiro não assumir a sua derrota já até ver o que irão fazer nos próximos tempos.

    Mais uma vez, obrigado pelo feedback.

  1. 26/01/2011 às 17:55

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